quinta-feira, 26 de junho de 2014

Descrônicas #3



Passei a minha noite de ontem, lendo quase 200 páginas de um romance muito subestimado. “Quem é você, Alasca?” é um livro feito não para adolescentes com hormônios à flor da pele, mas para pessoas que buscam a afirmação de alguma pergunta. Na trama, o personagem principal é obcecado por ler biografias, e nelas, encontrar as últimas palavras de cada biografado. Ao longo das 199 páginas, pude conhecer mais gente que viveu conosco, do que se eu tivesse sentado para ler algum livro grosso de história. Esse dilema das últimas palavras me fez perder mais algumas horas de sono além das que eu investi na leitura, e me deixou com um pensamento sobre esse assunto: quais vão ser as minhas últimas palavras? Imaginar que a qualquer momento nós podemos bater as botas é algo rotineiro, mas pensar nos últimos sons que eu emitiria é algo meio incomodo. Nunca sabemos quando estaremos dizendo nossas últimas palavras. Assim como pode ser um delicado “eu te amo” para nossos pais, pode ser um sonoro “vai tomar no cu” para um motorista que não respeitou o sinal de trânsito. O que eu quero dizer é que nós nunca sabemos quando a vida irá nos deixar, e não sabemos qual será o nosso legado que será marcado pelos últimos vocábulos que passarem por nossos lábios. Toda a nossa existência poderá ser resumida à lembrança que tiverem dos nossos últimos sons. É doloroso imaginar que não temos a liberdade nem de escolher nossas últimas palavras. O pior não é não saber o que será dito, mas, para quem será dito. Assim como pode estar falando com a pessoa mais querida das nossas vidas, e se despedir com carinho, pode estar na presença de apenas um estranho que te viu ser atropelado na rua. Mas, se pudesse contrariar essa falta de escolha que o universo nos impõem, saberia quais seriam as suas últimas palavras, e para quem as diria?

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