Passei a minha noite de ontem, lendo quase 200 páginas de um
romance muito subestimado. “Quem é você, Alasca?” é um livro feito não para
adolescentes com hormônios à flor da pele, mas para pessoas que buscam a
afirmação de alguma pergunta. Na trama, o personagem principal é obcecado por
ler biografias, e nelas, encontrar as últimas palavras de cada biografado. Ao
longo das 199 páginas, pude conhecer mais gente que viveu conosco, do que se eu
tivesse sentado para ler algum livro grosso de história. Esse dilema das
últimas palavras me fez perder mais algumas horas de sono além das que eu
investi na leitura, e me deixou com um pensamento sobre esse assunto: quais
vão ser as minhas últimas palavras? Imaginar que a qualquer momento nós podemos
bater as botas é algo rotineiro, mas pensar nos últimos sons que eu emitiria é
algo meio incomodo. Nunca sabemos quando estaremos dizendo nossas últimas
palavras. Assim como pode ser um delicado “eu te amo” para nossos pais, pode
ser um sonoro “vai tomar no cu” para um motorista que não respeitou o sinal de
trânsito. O que eu quero dizer é que nós nunca sabemos quando a vida irá nos
deixar, e não sabemos qual será o nosso legado que será marcado pelos últimos
vocábulos que passarem por nossos lábios. Toda a nossa existência poderá ser
resumida à lembrança que tiverem dos nossos últimos sons. É doloroso imaginar
que não temos a liberdade nem de escolher nossas últimas palavras. O pior não é
não saber o que será dito, mas, para quem será dito. Assim como pode estar
falando com a pessoa mais querida das nossas vidas, e se despedir com carinho,
pode estar na presença de apenas um estranho que te viu ser atropelado na rua.
Mas, se pudesse contrariar essa falta de escolha que o universo nos impõem,
saberia quais seriam as suas últimas palavras, e para quem as diria?
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